As lições da paralisação

autor André Pereira Cesar

Postado em 06/06/2018 09:19:56 - 09:06:00


Moreira Franco, Michel Temer e Eliseu Padilha em meio a confusão dos combustíveis/Divulgação/PR

Planalto embarcou na chantagem e, ao final, cedeu demais. Faltou pulso e sobraram declarações

Passado o ponto mais crítico da crise gerada pela paralisação dos caminhoneiros, o Brasil retoma certa "normalidade". O movimento, porém, deixou sequelas e, agora, é importante que o país reflita sobre as lições do ocorrido. Vamos a elas.

Governo Temer e negociação: com baixíssimos índices de aprovação popular, fraco e sem agenda, o governo Temer conduziu de maneira equivocada as negociações com os caminhoneiros. O Planalto embarcou na chantagem da categoria e, ao final, cedeu demais. Faltou pulso e sobraram declarações desencontradas. O sinal foi claro - qualquer grupo organizado pode colocar o governo Temer no corner.

Governadores: faltou colaboração por parte dos governos estaduais ao longo da crise. Pelo menos quatorze governadores se recusaram publicamente a discutir o ICMS, uma das demandas centrais dos caminhoneiros. Mais ainda, ficaram praticamente de espectadores nos momentos chave da crise. Apenas o paulista Márcio França (PSB) chamou a categoria para conversar. Esse movimento pode gerar dividendos eleitorais para o socialista.

O papel do Congresso Nacional: as lideranças de Câmara e Senado tentaram pegar carona na crise. Ao final, o Congresso fez o que dele se esperava - aprovou o corte no PIS/Cofins até o final do ano e retomou o debate em torno do marco regulatório para o setor de cargas. O problema é que, caso os parlamentares anistiem as multas impostas aos grevistas, passarão a clara mensagem de que, em ano eleitoral, é fácil conseguir benesses. Basta um mínimo de pressão.

O comando da Petrobras: a crise mostrou que o presidente da Petrobras precisa ter como atributos capacidade gerencial, sensibilidade social e força política. A empresa, de grande caráter simbólico para a população, foi (e continuará sendo) pressionada em diversas frentes. O discreto Pedro Parente, gestor respeitado, não resistiu a essa pressão. É necessário estabelecer com urgência um debate amplo e aprofundado sobre os rumos da Petrobras.

Dependência da rede rodoviária: é do conhecimento geral que, desde os governos Vargas e JK, o Brasil depende basicamente da malha rodoviária. A recente crise apenas evidenciou, de maneira dramática, essa realidade. Mais do que nunca, é preciso repensar esse modelo. Além disso, é necessária a revisão de políticas equivocadas, como a concessão de crédito farto e fácil aos caminhoneiros em períodos de bonança. A conta dessas políticas chegou, e mostrou-se salgada.

Opinião pública e redes sociais: a opinião pública mostrou-se contraditória ao longo da crise. De um lado, houve grande apoio popular ao movimento dos caminhoneiros. De outro, os brasileiros não se mostraram dispostos a arcar com os custos das demandas da categoria. Essa contradição mostrou sua face nas redes sociais, o novo espaço de "debates" da sociedade. Desinformação e manipulação deram o tom, piorando o quadro geral.

Agenda eleitoral: faltando poucos meses para as eleições, a agenda dos candidatos necessariamente incluirá os diversos aspectos da crise. Temas como pacto federativo e reforma tributária, infraestrutura e segurança pública ganharam caráter de urgência no debate nacional. Não importa o posicionamento ideológico de cada candidato, o importante é que se aborde com honestidade e coragem essas questões. Uma pergunta fica no ar - terão os candidatos capacidade, vontade e força política para fazer avançar, ao menos minimamente, essa agenda?

O debate está colocado. Não há mais o que postergar.


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