Caminhões, panelas e um governo à deriva

autor André Pereira Cesar

Postado em 28/05/2018 12:13:31 - 12:05:00


Ministro Eduardo Guardia é o responsável pela política econômica do governo Temer/José Cruz/ABr

Os representantes dos caminhoneiros jogaram de maneira ousada e, a princípio, tiveram êxito

"Sem caminhão o Brasil para". A velha máxima tornou-se realidade nos últimos dias. A paralisação de caminhoneiros em todo o país afetou, de maneira dramática, a vida de todos. O saldo final do processo ainda está por ser conhecido.

O evento, em primeiro lugar, revela a dependência do país para com o transporte rodoviário. Também ficou evidente nossa fragilidade no quesito infraestrutura. Como explicar a escassez de combustível, alimentos e remédios em poucos dias de paralisação?

Tudo leva a crer que o bem sucedido movimento foi um locaute, ou seja, empresários do setor de transportes atuaram nos bastidores para que a categoria cruzasse os braços. Tanto que há investigações em curso. Impressionou a todos a capacidade de mobilização dos caminhoneiros em um país de dimensões continentais.

Igualmente chamou a atenção o posicionamento da opinião pública no caso. Da direita à esquerda, o apoio ao movimento foi grande. Uma espécie de "os caminhoneiros me representam" ganhou corpo de norte a sul. As redes sociais espelham essa realidade.

Reforçados por esse apoio, os representantes dos caminhoneiros jogaram de maneira ousada e, a princípio, tiveram êxito. A pauta da categoria era extensa, mas a pressão sobre o Planalto surtiu efeito. Acuado, o governo cedeu rapidamente, reduzindo o preço do diesel e instituindo uma política de preços mínimos para o transporte de cargas, entre outros. Não se sabe ainda se ocorrerá a esperada contrapartida, com o encerramento definitivo da paralisação.

Dada a reação governista, o risco imediato é o de que outros setores da economia sigam o mesmo caminho. Os petroleiros, por exemplo, já anunciaram a paralisação temporária de suas atividades. As nuvens carregadas continuam no horizonte.
E pela primeira vez desde que a nova diretoria da Petrobrás assumiu, capitaneada por Pedro Parente, discutiu-se publicamente a política de preços que a estatal vem adotando ao longo dos últimos anos. Os preços são influenciados pelo valor internacional do barril de petróleo e pela cotação do dólar. Críticas a esse sistema partiram de todos os lados, principalmente dos presidentes do Senado Federal e da Câmara dos Deputados, de governadores estaduais e de diversos setores da economia, como a Confederação Nacional dos Transportes-CNT.

Ante esse caótico quadro, um dos grandes símbolos do ocorrido nos últimos dias voltou: a panela. Em primeiro lugar, ela representa a escassez de produtos de primeira necessidade. Além disso, aponta para uma piora do já combalido quadro econômico, com escalada de preços e impacto negativo sobre o PIB. Por fim, a panela, uma das marcas da queda do governo Dilma, reapareceu, ainda de maneira tímida, em protestos contra o presidente Temer na noite do último domingo. Péssima notícia para os atuais ocupantes do Planalto.

Por falar em governo, esse segue à deriva. Temer e sua equipe mostraram-se negociadores no mínimo inábeis, não oferecendo resistência aos caminhoneiros. Nem mesmo a convocação das Forças Armadas foi levada com seriedade. Mais ainda, o Planalto tem sérios problemas de comunicação. A incompetência apresentada ao país desde a última semana seria cômica, não fosse trágica.

Conforme colocado acima, as consequências do movimento ainda serão conhecidas. No entanto, algumas afirmações podem ser feitas desde já. O impacto das medidas anunciadas pelo governo será elevado e a conta será "espetada" na população. O debate eleitoral ganhou um novo elemento e os candidatos precisarão se posicionar sobre o tema. Por fim, o presidente Temer encerrará seu mandato extremamente enfraquecido, ecoando o final do governo Sarney. Um zumbi no Planalto.


Tite cai na comemoração do gol de Philipe Coutinho e vira meme na internet
AO VIVO - II Congresso de Direito Eleitoral de Brasília
veja +
Bolsa Família atende 74.122 famílias do Distrito Federal em junho
Distrito Federal recebe R$ 28 milhões do salário-educação de maio
Aprovada reserva de vagas em universidades públicas para alunos bolsistas de escolas beneficentes
veja +