As lições dos exilados para o Brasil

autor Misto Brasília

Postado em 17/05/2018 09:17:49 - 09:05:00


Refugiados venezuelanos fogem da miséria e da perseguição política para o Brasil/Arquivo

Através do olhar dos exilados, pode-se entender melhor até o próprio país na política

 

Texto de Astrid Prange de Oliveira

Brasil, país do futuro: caros brasileiros, nenhum título de livro sobre o Brasil foi tão celebrado quanto esse. O livro do escritor austríaco e judeu Stefan Zweig, publicado em 1941, carimbou a imagem do Brasil. A expressão, na melhor das hipóteses, fez do Brasil um mundo melhor, e na pior, um país que vive de promessas vazias.

Mas onde está o "país do futuro” na atual conjuntura política brasileira? Será que Stefan Zweig teria apontado uma saída para a crise atual? Quem talvez possa dar a resposta é a jornalista e tradutora brasileiro-alemã Kristina Michahelles, que traduziu vários livros dele (XadrezCarta de uma desconhecidaConfusão dos sentimentos) do alemão para o português.

Junto com o jornalista Alberto Dines, outro profundo conhecedor da obra de Stefan Zweig, ela entrou na alma do escritor e montou na antiga casa dele em Petrópolis um museu e centro de memória do exílio. A missão da Casa Stefan Zweig é grande: mostrar à geração jovem de brasileiros que o exílio é um destino que pode atingir todo mundo e todos os países. E que, através do olhar dos exilados, pode-se entender melhor até o próprio país.

Seis anos depois da inauguração da Casa Stefan Zweig, o esforço da diretora é reconhecido. No dia 30 de junho, ela vai receber a Condecoração de Ciência e Arte da República da Áustria. A mais importante insígnia é concedida num momento politicamente delicado, em que o governo local decidiu tomar um rumo mais restritivo na questão dos refugiados.

De repente, o tema exílio está espalhado pelo mundo todo: na Europa, pelos refugiados da Síria e do Afeganistão; no Brasil, pelos milhares de refugiados da Venezuela e do Haiti; nos Estados Unidos, pelo muro contra imigrantes mexicanos; e na Ásia, com o êxodo dos rohingyas.

Quando Stefan Zweig chegou ao Brasil, em 1941, ficou grato pela hospitalidade e se apaixonou pelo país, que parecia um mundo tão melhor que aquele de onde ele vinha. E também começou a enxergar a própria postura de uma maneira mais crítica. Na introdução de Brasil, país do futuro, ele escreve: "Com rapidez surpreendente, derreteu-se a arrogância europeia que eu levava como bagagem inútil nessa viagem. Percebi que tinha lançado um olhar para o futuro do nosso mundo”.

A metamorfose de Stefan Zweig é arrepiante. Os pensamentos e as experiências dele são compartilhados por milhares de exilados, na época dele e ainda hoje. Na Casa Stefan Zweig em Petrópolis, mais de cem trajetórias foram pesquisadas e apresentadas, entre eles a vida do compositor Hans-Joachim Koellreutter, do famoso joalheiro H. Stern e do químico austríaco Fritz Feigl.

Parece que a Alemanha se deixou inspirar por esse trabalho pioneiro. Pois a escritora romeno-alemã Herta Müller, radicada desde 1987 na Alemanha, se empenha pela criação de um museu do exílio em Berlim. No ano que vem, esse museu vai ser provavelmente inaugurado. Junto com a Casa Stefan Zweig, ele vai fazer parte de uma rede internacional de outros museus do exílio no mundo inteiro.

A mensagem de Stefan Zweig foi profética e ela vale ainda hoje: ele previu os perigos da extrema direita e do antissemitismo. Ele sonhou com um mundo sem fronteiras e passaportes, que décadas mais tarde virou realidade na comunidade europeia. Ele inclinou-se perante a grandeza do Brasil, enquanto a Europa destruía os seus valores humanitários no nazismo. Em tempos de polarização política, a mensagem de Stefan Zweig lava a alma. 

(Astrid Prange de Oliveira é jornalista da Deutsche Welle)

 


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