Tônia Carrero, o tempo e a morte

autor Maya Félix

Postado em 04/03/2018 09:45:40 - 09:34:00


Tônia Carrero deixa a memória de uma bela trajetória no teatro, TV e cinema/Arquivo/Reprodução/Globo

Enquanto o tempo passa, nós envelhecemos. O tempo é impiedoso. Não há concessões. Fica a memória

Na noite passada foi-se Tônia Carrero, aos 95 anos. Uma das mais belas atrizes brasileiras, mas não apenas isso: era talentosa, fulgurante. Como foi triste ler esta notícia!

Lembrei-me da famosa palestra de Jorge Luis Borges na Universidad de Belgrano, em Buenos Aires, nos anos 1970: “O Tempo”.

Disse o mestre: “O problema do tempo é esse. É o problema do fugidio: o tempo passa. Volto a recordar aquele belo verso de Boileau: ‘O tempo passa no momento em que algo já está longe de mim’. Meu presente -- ou o que era meu presente -- já é o passado [...]. Em todo caso, a memória permanece. A memória é individual. Nós somos feitos, em boa parte, de nossa memória.”

A morte é, ainda, para a humanidade, o inimigo a ser vencido. Enquanto o tempo passa, nós envelhecemos. O tempo é impiedoso. Não há concessões. O que nos resta de Tônia Carrero? A memória de uma bela trajetória, feita de sucessos no teatro, no cinema, na televisão. A memória. É isso que é Tônia Carrero em cada um de nós.

Continua Borges: “Essa memória, em grande parte, é feita de esquecimento. Há, pois, o problema do tempo. Esse problema pode não ser resolvido, mas podemos revisar as soluções que lhe foram apresentadas. A mais antiga é a de Platão, em seguida a de Plotino, e, depois, a de Santo Agostinho. É a que se refere a uma das mais belas invenções do homem. Ocorre-me que se trata de uma invenção humana.” O tempo é uma invenção. O relógio, os segundos, as horas, meses, anos. Inventamos tudo isso.

Sem entrar nas questões filosóficas que Borges desenvolve, penso que realmente o tempo é nossa invenção, a fim de podermos mesurar “isso” que se vai – e envelhecemos. Um dia, Manuel Bandeira escreveu [poema Profundamente]: “Quando eu tinha seis anos/ Não pude ver o fim da festa de São João/Porque adormeci [...] Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo/ Minha avó/ Meu avô/ Totônio Rodrigues/ Tomásia/ Rosa/ Onde estão todos eles?”

Citando Santo Agostinho, Jorge Luis Borges fala da criação do princípio do tempo: “Há uma frase muito linda de Santo Agostinho, que diz Non in tempore, sed cum tempore Deus creavit caela et terran (ou seja: "Não o tempo, senão no tempo, Deus criou os céus a Terra"). Os primeiros versículos do Gênesis referem-se não apenas à criação do mundo, à criação dos mares, da Terra, da escuridão, da luz, mas, também, do princípio do tempo. Não houve um tempo anterior: o mundo começou a ser com o tempo, e desde então é sucessivo”.

Somos nós que estamos sujeitos à ação do tempo, não Deus. Deus É fora do tempo, nós estamos dentro dele. Por isso morremos, não importa a fortuna, a inteligência, a beleza ou o talento, como ocorreu, infelizmente, a Tônia Carrero.

Quando Ferreira Gullar, hospitalizado, em 2016, recusou qualquer tratamento invasivo, disse aos seus que já havia vivido demais: “Coisas que eu nunca pensei na minha vida que eu iria viver”. E que estava em paz. Pensando em seu filho já morto, havia escrito, em 1999, o famoso poema Os mortos:

os mortos vêem o mundo 
pelos olhos dos vivos 

eventualmente ouvem, 
com nossos ouvidos, 
certas sinfonias 
algum bater de portas, 
ventanias 

Ausentes 
de corpo e alma 
misturam o seu ao nosso riso 
se de fato 
quando vivos 
acharam a mesma graça 

© FERREIRA GULLAR 
In Muitas vozes, 1999
 

Borges, finalizando sua palestra sobre o tempo, recorre a palavras do apóstolo Paulo: “Quando São Paulo disse ‘morro a cada dia’, não era esta uma expressão patética. A verdade é que morremos a cada dia e nascemos a cada dia. Estamos permanentemente nascendo e morrendo. Por isso o problema do tempo nos afeta mais que os outros problemas metafísicos. Por que os outros são abstratos. O do tempo é nosso problema. Quem sou eu? Quem é cada uma de nós? Quem somos? Talvez o saibamos algum dia.”

Eu volto a Tônia Carrero. Que tristeza! Quanto mais envelheço, mais sinto a tristeza da morte. Que dor foi perder Ferreira Gullar! No dia 1º, minha avó completou lindos 95 anos. Hoje, dia 3, aos 95 anos, morre Tônia Carrero. Não há mais nada a ser dito.


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