Um país em convulsão

autor André Pereira Cesar

Postado em 06/09/2017 16:07:47 - 16:00:00


Crianças desfilam no 7 de setembro, Dia da Pátria/Arquivo/DiáriodeCanoas

Os eventos recentes talvez expliquem a aprovação PEC que prevê fim e coligações nas eleições

Tradicionalmente, uma semana de feriado apresenta pouca movimentação no campo da política. Essa véspera do 7 de setembro, no entanto, está atípica.

Para começar, a disputa entre DEM e PMDB mostra o nível de tensão entre os partidos. Integrantes do PSB, entre eles o ministro de Minas e Energia Fernando Bezerra Filho, negociavam com os democratas, mas na última hora, migraram para o PMDB. Inevitável cisão na base aliada.

Também no PSDB a situação não é confortável. Dória e Alckmin, criatura e criador, abriram disputa aberta visando a sucessão presidencial. O partido sangra em público.

A situação é ainda mais complexa no âmbito da Justiça. Os ex-presidentes Lula e Dilma foram denunciados pela Procuradoria-Geral da República por formação de organização criminosa para desviar dinheiro da Petrobras e de outros órgãos da administração. O inquérito é chamado de "quadrilhão do PT", por envolver alguns dos principais nomes do partido, como os ex-ministros Palocci, Mantega, Paulo Bernardo e a senadora Gleisi Hoffmann, entre outros. O procurador-geral, Rodrigo Janot, apontou Lula como chefe e "grande idealizador" da organização criminosa, e defendeu que ele seja condenado a pena maior que a dos outros. A suposta quadrilha do PT é acusada de receber R$ 1,48 bilhão de propina "de meados de 2002 a 12 de maio de 2016".

Somente Lula teria recebido R$ 230 milhões. Segundo a denúncia, o esquema causou prejuízos de R$ 29 bilhões à Petrobras. A defesa de Lula disse que é perseguição a ele. Os advogados de Palocci informaram que o petista vai colaborar no processo.

E não é só. As citações de delatores da JBS a quatro ministros do STF, sem qualquer indício de crime, provocaram forte reação no tribunal. A presidente Cármen Lúcia disse que houve agressão inédita à "dignidade institucional" do Supremo e pediu apuração imediata. Pelo menos dois ministros da Corte defenderam que a validade das provas apresentadas por Joesley Batista seja revista pelo plenário do tribunal, se comprovada omissão de informações e participação do ex-procurador Marcello Miller. O relator da Lava-Jato no STF, Edson Fachin, aguardará o fim das investigações da PGR sobre o caso. Para o Planalto e governistas, com a gravação, a nova denúncia do procurador Janot contra o presidente Temer já chegará mais fraca ao Congresso. Fachin homologou a delação do doleiro Lúcio Funaro, operador do PMDB.

Por fim, na maior apreensão de dinheiro vivo já feito no país, a PF encontrou R$ 42.643.500 milhões em notas de R$ 100 e R$ 50 e US$ 2.688.000 milhões (R$ 8,4 milhões) totalizando R$ 51 milhões, guardadas em malas e caixas num apartamento de Salvador. Segundo a PF, o imóvel pertence a Silvio Ferreira, que o teria cedido para que o ex-ministro Geddel Vieira Lima (PMDB-BA), em prisão domiciliar, guarde pertences. Sete máquinas de contar cédulas levaram 14 horas para concluir a contagem do dinheiro.

A operação, batizada de Tesouro Perdido, foi deflagrada na manhã desta terça-feira (05) e é desdobramento de outra investigação, sobre fraudes em liberações de empréstimos na Caixa, a Cui Bono. Na decisão em que autorizou a busca e apreensão no imóvel que seria o 'bunker' do dinheiro de Geddel Vieira Lima, o juiz federal Vallisney de Souza Oliveira, da 10ª Vara do TRF-1ª Região, destaca que a Polícia Federal foi informada sobre a existência do local por meio de uma ligação telefônica ocorrida em 14 de julho do corrente ano. O apartamento fica a 1 km de onde Geddel mora e cumpre prisão domiciliar.

Os eventos recentes talvez expliquem a aprovação da PEC que prevê fim de coligações. O plenário da Câmara dos Deputados aprovou em primeira votação, por 384 votos a 16, o texto-base da PEC que põe fim às coligações em eleições proporcionais e institui a cláusula de barreira, medida que restringe o acesso de partidos a verbas públicas e à propaganda de rádio e TV. A PEC é uma das mudanças da reforma política em discussão na Câmara. A data de entrada em vigor da norma só será definida na semana que vem. Uma medida de proteção, talvez.

O fato é que a crise política e moral atingiu patamares até então inéditos. Sem lideranças fortes, o país segue à deriva.


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