Eu, escritora

autor Maya Félix

Postado em 20/05/2017 17:50:29 - 17:44:00


Mesmo na escrita há usos diferentes da linguagem/Arquivo/Chimeriane

O ato de pensar em si já é o de formular linguagem. Mas escrever literatura não é um brainstorm

O ato de escrever literatura merece mais atenção do que lhe tem sido dada ultimamente. Escrever não é um ato tão solitário quanto se imagina, pois estamos continuamente recriando em nossos escritos os outros tantos textos que estão em nosso catálogo de leituras já feitas, filmes vistos, músicas ouvidas e por aí vai. Mas o texto tampouco é um quebra-cabeças de citações, formado sistematicamente por memórias do que outros já disseram. Eu acredito na originalidade, na genialidade, na composição única e no estilo próprio. Ainda assim, escrever é também uma ação singela.

O escritor tem em mente uma ideia. O ato de pensar em si já é o de formular linguagem. Mas escrever literatura não é um brainstorm, não é fazer uma lista de supermercado: é um processo de organizar as melhores e mais adequadas palavras para que sua ideia, em geral uma narrativa – uma história – chegue ao seu leitor (que você sempre imagina quem é) da forma mais eficiente possível.  E quando falo “eficiente”, quero dizer clara, lógica, mas também engraçada, romântica, tocante, dramática, concisa, enfim, ao gosto do freguês. É preciso ter vocabulário e ordená-lo com brilhantismo, e isso não é para qualquer um. É arte. Poucas vezes surge um Baudelaire com Pequenos Poemas em Prosa, um Maupassant terno e ao mesmo tempo cruel, com Boule de Suif, um Dostoiévski incompreendido em O Idiota ou um Kafka seco, sempre seco, sempre amargo como a humanidade, e cruel, triste, com O Processo, Metamorfose, O Artista da Fome, Cartas ao Pai...

Mas por ora tenho escrito crônicas, gênero quotidiano fruto da fusão do conto e do texto jornalístico, eternizado por Fernando Sabino, Carlos Drummond de Andrade, Rubem Braga, Luís Fernando Veríssimo e outros. A crônica parece fácil, mas exige sensibilidade e atributos que outros gêneros também pedem. Se for histriônica, deixa de ter lugar entre os fatos do cotidiano e pode passar ao conto fantástico. Existe a crônica de humor, que Veríssimo imortaliza, e a dramática, comum em Sabino. Em ambas, o equilíbrio de forças da narração deve existir. Há cronistas que narram fatos absolutamente desinteressantes. Não desinteressantes em si, mas pela maneira como são narrados, em absoluta mornidão. Um bom escritor consegue fazer um enterro ficar interessante. O voo de uma borboleta. A morte do leiteiro. Mas quem quer ler algo mais ou menos? Existem os outros lados. Há os que acrescentam tantos detalhes que fazem o leitor perder o norte: a crônica deve ser simples e seguir uma linha narrativa centrada num fato, num texto curto. Ponto.

Mas o quero dizer é que escrever exige realmente atenção. Mais que isso. É um exercício que deve ser feito com disciplina. Geralmente, escreve bem quem escreve muito e frequentemente, porque se aperfeiçoa. Não é uma garantia, mas uma probabilidade. Quem tem um violino e ensaia dez horas por dia, em geral vai tocar melhor do que quem ensaia uma vez por semana. Há uma frase conhecida, atribuída a Thomas Edison, que diz que talento é 99% de transpiração e 1% de inspiração. Talento é trabalho.

Escrever também tem a ver com ler. Disse isso no início. Sem repertório, não há texto. Não há ideias, e não há tampouco forma, domínio da norma padrão da língua portuguesa. Apesar de críticas à “opressão” e ao “domínio elitista” da norma padrão e da gramática normativa, nunca vi nenhum desses críticos escreverem seus livros numa outra norma que não fosse a padrão dita culta. Isso porque a linguagem escrita, diferentemente da falada, pede o estrito conhecimento das regras da norma padrão, também chamada culta, de qualquer língua. É preciso ter conhecimento linguístico, para saber que tipo de linguagem usar em seus textos. Seu estilo pode ser mais ou menos formal, uma crônica é um gênero de texto que pede um tipo de linguagem mais coloquial que um artigo de opinião, e um artigo científico já é uma história bem diferente. Mesmo na escrita há usos diferentes da linguagem, ainda que em todos eles a gramática normativa seja sempre a mais adequada.

Vejo nas redes sociais toda uma geração cibernética que perdeu o contato com o papel e com o livro, o romance impresso, tentando escrever, tateando. E, isso é engraçado, esses jovens que não aprenderam a manipular as palavras num texto atribuem-se a profissão de “escritor”. Está bem, mais louco é quem me diz que não é feliz. Jovem, entenda isso: é preciso ler muito para escrever bem. É importante ler os considerados “chatos” da literatura universal e outros.  Particularmente, recomendo Kafka, Dostoiévski, Eça de Queiroz, Machado de Assis (inclusive os contos, românticos, por que não?), Flaubert, Albert Cohen, Maupassant, Ferreira Gullar, Manuel Bandeira, Eugène Ionésco, Charles Bukowski, Cecília Meirelles, Mark Twain, Arnaldo Antunes, Fernando Pessoa, Doris Lessing, C. S. Lewis, Jacques Prévert etc etc etc. Mas dou também um aviso: ninguém vai conseguir ler tudo o que já se escreveu neste vasto mundo, então leia, mas também ouça música, viaje, vá ao teatro, ao cinema, ao museu, entenda a História, discuta Política, leia mais Mises e menos Marx... entenda o mundo no qual você vive, é simples assim, porque existe um conhecimento de mundo, enciclopédico, que livro nenhum vai construir na sua vida.

Há outro aspecto interessante nisso tudo: para todo aquele que escreve (e se você escreve sabe disso) existem momentos bons e ruins, e isso mexe com nossa autoestima, é delicado. Escritores são almas sensíveis, apreciam poesia, Bach, punk rock e Jack White. Você mesmo, amigo escritor, deve escrever textos que considera horríveis, e nem entender como publicou aquilo um dia. É a vida, todo escritor já confessou ter seus textos de que não gosta. Há também aquela crônica que agradou aos leitores e a outra que nem tanto, e, em tempos de redes sociais, saber o que agradou ou não é rápido. Nem todo artigo será apreciado igualmente. Uns serão mais, outros menos, outros de jeito nenhum. Mesmo que o próprio escritor considere seu texto B melhor que seu texto A, os leitores são soberanos para dizerem que preferem A a B. E ponto final, durma com isso.

Por fim, o pior de tudo: depois de escrito, o texto não pertence mais ao escritor. Ele é publicado, seja impresso ou virtualmente, e está pronto para ser amado, curtido, reproduzido, comprado, copiado, imitado, pirateado, odiado, criticado... ignorado... enfim, ele não tem mais dono, tem apenas autor. Durma com isso também.


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