Não basta, mas poderia ser pior

autor Maya Félix

Postado em 12/05/2017 08:11:56 - 08:07:00


Os buracos de rua em São Luís, como na Eliézer Silva/Arquivo/Divulgação

Há coisas bem piores, você imagina que poderia morar em Uganda, por exemplo. Ou na Arábia Saudita

Não basta. Não bastam o Estado Islâmico e a extinção da ararinha azul. Aquele carro enorme SUV miserável estaciona em fila dupla na descida da Rua do Egito e você nem consegue se desviar, porque do outro lado da pista vem outro carro, na direção contrária: aí perde seu retrovisor direito. Estava tudo bem, você ouvia Marcelo Jeneci, pensava que ia fazer salada e ver a novela das sete, mas não, porque sempre tem um imbecil pra estacionar em fila dupla e achar que tem razão.

Você continua, não para, porque está chovendo, e perder um espelho retrovisor não é o fim do mundo, afinal de contas poderia ter sido o farol esquerdo e a lataria. Otimismo, poderia ter sido pior. E começa a tocar People Alone, da sua playlist, lá dos anos 80; que bom, você respira fundo, muita calma nessa hora, on y va! Mas não basta. Não basta porque está chovendo muito, e bem ali na frente tem um buraco que parece uma cratera lunar, pronta pra engolir o seu pneu. Pagou IPVA para o vagabundo do prefeito, não é? Adiantou? Nada, e quando chove ainda é pior, porque aquele asfalto de qualidade duvidosa se parece com aquela música dos anos 70, que você acha linda... “Eu sou nuvem passageira, que com o vento se vai... Eu sou como um cristal bonito, que se quebra quando cai...” Você sai do buraco, a chuva continua a cair e você só pensa em ir pra casa.

Há coisas bem piores, você imagina que poderia morar em Uganda, por exemplo. Ou na Arábia Saudita. É óbvio, o asfalto da Arábia Saudita com certeza é bem melhor que essa porcaria de São Luís do Maranhão, mas na Arábia Saudita você não ia poder dirigir. Resolve colocar o CD do Dead Weather, porque na Arábia Saudita também não ia poder ouvir rock. E vem aquela revolta com a Arábia Saudita. Tanto problema no mundo e eles proibindo mulher de dirigir. Você chega em casa. Chove muito, o controle remoto abre o portão, mas o portão não fecha. Você abraça o volante do carro e baixa a cabeça. Por que você? Por quê? Não é? Tanta gente no mundo e a sorteada para ter um portão que nunca fecha com o controle remoto é... você! Mas aí você respira fundo e pensa: poderia ser pior.

O portão pelo menos se abriu e o carro estava dentro de casa. Aí você desce do carro, com chuva e tudo, e pela enésima vez puxa o portão para que ele feche. Porque não basta chover: o portão tem que continuar a dar problema, mesmo depois do Procon (você já desistiu do Procon há séculos). Mas a vida é bela, vai começar a novela das sete, vamos fazer salada e comer com queijo brie, que você tanto gosta etc. A vida vale a pena, já disse aquele filósofo de boteco qualquer.

Os pequenos prazeres, um café expresso, um bom chá, um livro legal. Aí você vai para o seu quarto. Apesar do carro em fila dupla que quebrou seu retrovisor, do enorme buraco que provavelmente entortou a roda do seu carro, do portão que nunca fecha. Mas não basta. A academia de ginástica que fica exatamente atrás da sua casa está numa aula de crossfit, e eles estão se lixando para a vizinhança. E você é a vizinhança. Sustentabilidade? Meio ambiente? Poluição sonora? Responsabilidade social? Você vive com as janelas fechadas, cortinas, e aumenta o som da sua TV, mas não adianta: aquele som alto miserável compete com a sua novela. Você respira fundo. Poderia ser pior. Com paciência e civilidade, liga para a academia.

A recepcionista diz que não está ouvindo sua voz. Você fala mais alto, quase gritando. Diz que é vizinha e que a música está incomodando. Sem contar os gritos histéricos de algum professor enlouquecido que, se continuar nesse ritmo, fica sem as cordas vocais daqui a poucos anos. Não adianta. Você liga 190. Faz a ocorrência. Anota o número. Tudo bem. Agora eles vão ver, hein? Agora é com a polícia, hein? São 19:15. Perturbação do sossego alheio, é o que diz a atendente. Maravilha. Você continua a ver TV e aumenta o som. Nada vai acabar com o seu bom humor. Ainda mais que aquele capítulo está ótimo.

Acaba a novela e o som da academia fica ainda mais alto. Começa o Jornal Nacional. Você vai fazer sua salada. Abre a porta da área de serviço e descobre que o conserto no telhado não resolveu nada, está tudo alagado. Respira fundo. Dez vezes. Respiração abdominal. Poderia ser pior, você poderia estar passando férias na Tailândia em 2004. Pega o pano de chão e coloca em cima da água. Nada vai destruir seu bom humor. Volta para a cozinha.

Termina a salada e leva tudo para o quarto. O som da academia está bombando. São 21:00 e você liga para 190 de novo. Dá o número da ocorrência para a atendente e ela diz que vai pedir mais agilidade à viatura. Ela vai pedir mais agilidade à viatura. ELA VAI PEDIR MAIS AGILIDADE À VIATURA. “Moça, se fosse um assalto a esta hora eu estaria morta”. Mas poderia ser pior. Você poderia estar na Síria. Resolve ligar o ar condicionado.

 

E se lembra de que o técnico, que ficara de vir pela manhã, não tinha vindo nem dera nenhuma satisfação. Aí você se lembra também de que na noite passada aquele barulho horrível do aparelho de ar condicionado não tinha deixado você dormir até as quatro da manhã. Tudo bem. Você precisava do ar condicionado, porque o quarto já estava ficando bem quente. "Moro num país tropical"... O resto você anda duvidando. Mas poderia ser pior. 


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