Aquela velha opinião formada sobre tudo

autor Vitória Colvara

Postado em 28/04/2017 14:30:43 - 14:26:00


Somos uma metamorfose ambulante, como disse Raul Seixas/Arquivo/NaTrilhadaVida

Quanto mais certeza nós temos a respeito das coisas, mais nos afastamos da realidade

Em uma sociedade cada vez mais polarizada, somos instigados, para não dizer intimados, a escolher um lado para estar. Como se a realidade fosse uma moeda.  Não há espaço para os indecisos, para os compreensivos e tampouco para aqueles que resolvem - pelo mero prazer de apreciar a paisagem - ficar em cima do muro. Temos que nos posicionar e temos de fazê-lo rapidamente. Ao amanhecer, antes de reparar se faz frio ou calor, se chove ou faz sol, já temos que colocar nossos miolos para funcionar e responder as mil mensagens de whastapp. Para além dos clássicos e mecânicos “bom dia”, também somos obrigados a emitir nossa opinião sobre algum tema polêmico de qualquer natureza.

Os grupos de wtpp geralmente são formados em virtude de algo que aquelas pessoas têm em comum, mas as discussões são construídas justamente em torno do que aquelas pessoas divergem. Tomam uma proporção no meio virtual que jamais tomaria se estivessem todos reunidos em um café ou numa mesa de restaurante. E aí tem o neto ateu mandando desaforo para a avó católica desde cedo. A vegana aterrorizando cada vez que se combina um churrasco e sendo ridiculamente zoada por pessoas que não sabem o que comem. Os machistas sendo machistas quase sempre, até soltarem um vídeo inapropriado no grupo de trabalho e rezarem para que todos finjam que nada aconteceu. No grupo dos esportes, discute-se política com um nível de hostilidade semelhante aos ringues de luta. A situação está tão complicada que sempre tem aquela pessoa mais sensata pedindo aos demais que se restrinjam a falar apenas sobre temas relacionados diretamente aos grupos.

Eu imagino que para quem é super definido e cheio de certeza, não deva ser assim tão difícil o dia a dia nas redes sociais. Quanto mais certeza nós temos a respeito das coisas e quanto mais nós definimos tudo e todos, mais nos afastamos da realidade e passamos a viver aquele mundinho só nosso. Seja ele azul, cor de rosa, arco iris, cinza ou verdinho. Não precisamos escutar quem discorda da gente se podemos simplesmente dar um block. E de bloco em bloco, erguemos nossos próprios muros que nos aprisionam, junto com os nossos semelhantes, por trás de uma falsa ideia de segurança.

Ficamos experts em fazer comparações, fascistas, nazistas, golpistas, feminazis, ditadura gay, extremista, terrorista, carnistas. Somos todos inimigos. Mas somos, sobretudo, pessoas. Seres humanos dividindo o mesmo espaço nesse planeta gigante sabe-se lá por quanto tempo ainda. Eu, particularmente, tenho tido muito cuidado com as comparações e analogias. Um claro exemplo disso é a relação uber versus táxi. Eu já comparei máquinas de escrever aos taxistas, mas depois me dei conta de que não se trata de uma mera evolução tecnológica e tampouco de um aprimoramento de um objeto. Trata-se de uma prestação de serviço, que envolve uma série de pessoas e que por sua vez, envolve todo tipo de sentimentos, situações, complexidades, emoções. Entre o isso e o aquilo, existem infinitas possibilidades.  

Antes de emitir uma opinião sobre algo, é importante saber que estamos falando com pessoas e sobre pessoas. Não defendo nem nunca defenderei a proibição do uber, assim como não defendo o crescimento desenfreado apoiado pelos desenvolvimentistas, mas adquiri um olhar um pouco mais sensível sob a revolta em massa dos taxistas que, em sua maioria, são pessoas que trabalham para outras pessoas que são os verdadeiros donos do táxi. Que, em sua maioria, são pessoas que sabem os caminhos da cidade pela vivência e não tem a menor ideia de como se opera um aplicativo de smartphone ou de como se navega no waze. Aprendi que por detrás de cada multa por crime ambiental, existe algo além de uma empresa, além de uma barragem, além de uma rede de pesca ou além de uma plantação de soja. Se for pra usar analogias em nossos discursos, então que façamos corretamente. E se for fazer comparações, que seja entre sujeitos, não com objetos.

Somos, sobretudo, pessoas. Vivendo por detrás de máquinas, mas pessoas! 

“Os cientistas dizem que somos feitos de átomos, mas um passarinho me contou que somos feitos de histórias.” – Eduardo Galeano 


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