O churrasco de papelão e o apego ao sensacionalismo

autor Vitória Colvara

Postado em 20/03/2017 15:17:09 - 15:11:00


Np caso da carne estragada também há uma dose cavalar de sensacionalismo/Charge/OCafe

O Direito do Consumidor se sustenta em princípios que buscam sempre proteger a parte mais vulnerável

A Operação Carne Fraca da Polícia Federal, deflagrada na semana passada após dois anos de intensas fiscalizações, gerou um alvoroço nas redes sociais aflorando aquilo que o brasileiro tem de melhor: nossa criatividade. Por alguns instantes cheguei a pensar que finalmente o duelo político entre coxinhas e mortadelas cessaria ou pelo menos teria uma trégua, ledo engano.

Instaurou-se uma nova polêmica, generalizada e multifacetada.  Mais uma vez todos batem nas consequências do problema e se esquecem das causas. A raiz de tudo isso é que realmente deveria ser colocada em pauta e em discussão por essas mentes virtuais brilhantes. Alimentar-se é uma necessidade básica de todo ser vivo, ter a possibilidade de produzir e comercializar o alimento é uma prerrogativa humana. Fornecer informações claras e transparentes sobre o alimento que está sendo comercializado é um DEVER de todo fornecedor.

O Direito do Consumidor se sustenta em princípios bastante claros, que buscam sempre proteger a parte mais vulnerável da relação de consumo. Ocorre que a preocupação com a qualidade dos alimentos, vem sendo substituída pela preocupação com a praticidade, apresentação e produção em larga escala. Que a pressa é inimiga da perfeição ninguém tem dúvidas, mas na hora de colocar isso em prática no nosso dia a dia, preferimos comprar a salada de frutas do supermercado na sua incrível embalagem plástica, o maior frango congelado e a carne mais vermelha possível, porque no nosso imaginário meio ilógico, vermelho é sangue, e sangue é fresco.

Buscar entender o que realmente há de podre em todo o processo produtivo da carne, me parece muito mais sensato do que simplesmente alardear algo que já está em chamas. Punir as empresas pelas práticas ilegais e abusivas e pelo gritante atentado a saúde das pessoas, é algo extremamente necessário nesse momento. Mas muito mais do que isso, é necessário buscar entender porque que pensamos que precisamos de produção em larga escala de um mesmo produto.

Por que a Joana do nordeste e a Paula do sul precisam ir ao supermercado e encontrar a mesma peça de carne, embalada a vácuo, registrada, e com uma marca imensa Fiboii e o vulto do Tony Ramos ao fundo? Por que o Pedrinho e a Sofia precisam comer o presunto anunciado pela Fátima Bernardes? E por que um ator de novela e uma jornalista despertam tanta confiança nos brasileiros a ponto de escolherem seus alimentos por uma propaganda?

O que a indústria tem feito, e não somente a alimentícia, é fruto de uma sociedade de consumo totalmente alienada que compra pelo que vê. Pelas leis naturais da vida, os alimentos são escolhidos pelo toque e pelo cheiro. Basta dar um pulinho numa cidade do interior pra encontrar os legítimos frigoríficos com aquela carne exposta... Valendo-se do uso natural do sal pra evitar a putrefação e fazer aquela deliciosa carne seca misturada com farinha. Uma boa paçoca de carne tem a validade quase indeterminada. Cebola, farinha e carne seca. Simples.   

A questão não é comer ou deixar de comer carne. Tampouco criticar as sátiras dos vegetarianos, veganos e afins que, com toda razão, se sentem orgulhosos por não terem sido enganados. E sentem-se orgulhosos também, porque dispõe de informações e conhecimentos que são capazes de despertar mudanças de comportamento e de hábito.

O que deve ficar bastante claro é que a alimentação é algo que não pode ser imposto e muito menos padronizado. São inúmeros os fatores que envolvem o processo alimentício, e essa operação da PF, sem sombra de dúvidas, está deixando bem evidente que a produção em larga escala e visando apenas o lucro, tem causado efeitos muito nefastos para a nossa saúde e para o meio ambiente.

 

Que aproveitemos de todo esse sensacionalismo midiático para refletir sobre nossos hábitos e repensar nossa alimentação diária. Vamos valorizar os produtos locais que obedecem a uma regra de sazonalidade, a feirinha de orgânicos do bairro, o quintal e casa ou a horta suspensa do nosso apartamento. Vamos buscar alimentos cuja procedência seja minimamente conhecida, algo que não nos impede de lutar pela total transparência das grandes indústrias e pela responsabilização de todos os envolvidos nessa operação que ainda vai ser tema de muitos churrascos por aí.


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