Fast food nation à brasileira?

autor André Pereira Cesar

Postado em 20/03/2017 09:44:39 - 09:35:00


Hamburger preparado para consumo com carne brasileira/Arquivo/Divulgação

As investigações devem prosseguir com seriedade e o embate ideológico é cortina de fumaça

No início da década passada, o jornalista Eric Schlosser publicou "Fast food nation" ("Nação fast food", Companhia das Letras, fora de catálogo). Na obra, o autor realiza uma exaustiva pesquisa sobre a produção de comida industrializada nos Estados Unidos, tendo como base a região do Colorado.

Schlosser, entre outros pontos, examina como se dá o processo de produção da carne, do abatedouro ao consumidor final; fala das degradantes condições de trabalho dos funcionários de frigoríficos e afins; e aponta para as mudanças de sabores, cores e cheiros por intermédio de sofisticada química.

O texto é duro e, ao final, estabeleceu um novo patamar no debate norte-americano sobre alimentação, saúde pública, segurança nacional e outros temas.

A obra de Schlosser me veio à memória tão logo recebi as primeiras informações acerca da Operação Carne Fraca da Polícia Federal, na última sexta-feira. Há algo em comum? Qual o debate e quais as consequências do aqui ocorrido?

Na verdade, salta aos olhos, de imediato, uma elevadíssima politização do processo iniciado semana passada. O embate, novamente, se dá entre esquerda e direita, e está completamente equivocado. Ele apenas torna mais tenso o já esgarçado ambiente político.

Em primeiro lugar, houve certo espalhafato sim, por parte da PF, que explorou com sucesso a mídia para divulgar a ação. No calor dos acontecimentos, foram misturados alhos e bugalhos, fatos distintos foram postos como se fossem uma coisa só, o que embaralhou o entendimento da opinião pública. A operação fica "menor" diante disso.

Por outro lado, a ação foi trabalhada por dois anos e, sim, há irregularidades no setor. Chama a atenção que, no caso das gigantes ("campeãs nacionais" no jargão do governo passado) houve corrupção praticada junto a servidores do Ministério da Agricultura. Um outro frigorífico teve sim problemas com a qualidade de sua carne.

Em suma, as investigações devem prosseguir com seriedade. O embate ideológico, nesse caso e nesse momento, apenas joga cortinas de fumaça que podem interessar aos verdadeiros culpados. Não sejamos inocentes úteis.

Nos Estados Unidos, o trabalho de Schlosser ajudou a mudar certas políticas de um setor crucial para a sociedade. A Carne Fraca, aqui, poderá fazer algo similar. Basta seriedade no processo investigatório e acompanhamento com lupa por parte da sociedade, a maior interessada.

 


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