Quase um mês sem Ferreira Gullar

autor Maya Félix

Postado em 23/12/2016 09:36:48 - 09:25:00


Poeta nunca teve comportamento de estrelismo ou arrogância/Arquivo/TribunadaInternet

Era uma das grandes cabeças pensantes do Brasil, um intelectual completo, autodidata reconhecido

Faz quase 20 dias que Ferreira Gullar morreu. Perdemos uma mente extraordinária. Semana passada comprei um livro dele, Arte Contemporânea Brasileira (Ed. Lazuli, 207 p.). Folheando-o, na livraria, eu me dei conta de que análises como aquelas, nunca mais. Nem as crônicas dominicais no site da Folha de São Paulo, nem as entrevistas lúcidas em tantos canais de TV, nem suas análises políticas brilhantes, repletas de relatos de experiências pessoais históricas preciosas para a compreensão da atualidade.

Também entendi que aquele livro seria um dos poucos dele sem sua dedicatória, em minha pequena biblioteca. Logo depois de sua morte, estava em meu quarto ocupada com alguma coisa sem importância quando ouvi a música de abertura da novela das nove da Rede Globo, cuja letra é um poema de sua autoria. Foi a primeira vez que chorei realmente. Tempus Fugit. Lá vai o trem sem destino, desta vez levou-nos Ferreira Gullar.

Para mim, há bem mais que o intelectual realmente único que parte, e isso já é tanto. Desde 2009, tinha alguns contatos com o poeta. Telefonava, ia a seu apartamento quando estava no Rio de Janeiro, conversava. Mandei-lhe algumas poesias que escrevo, recebi alguns elogios. Em todas as vezes que conversamos, nunca vi em seu comportamento estrelismo, arrogância, altivez. Era apressado. Tinha sempre alguma coisa para realizar. Sua vida é repleta é disso mesmo: realizações. Mas poucas vezes conheci alguém tão amigável e pacífico, bem resolvido, consciente de si mesmo no mundo. Tinha dois filhos, Luciana e Paulo, aos quais se dedicava amorosamente.

Ferreira Gullar, poeta imortal, era o maranhense José de Ribamar Ferreira, filho de D. Alzira, irmão de Núbia, Consuelo, Alzira, Newton, e tantos mais, aos quais era sempre disponível. Tinha oito netos, com quem mantinha contato frequente.

Há alguns anos, ele soube que um amigo de jogos de futebol da infância —o “Esmagado” — estava precisando de uma cadeira de rodas e de remédios, vivendo numa situação financeira muito precária, em São Luis, e mandou dinheiro para todo o necessário, durante mais de um ano, até que o velho amigo partiu. Fazia isso e muito mais, e não dizia a ninguém.

Afirmou-me, em entrevista filmada em junho de 2016, que o importante, nesta vida — que o sentido dela mesma — estava em ajudar o outro. Comigo era afável, sincero e correto. Não temia rever seus conceitos, admitir equívocos, e nisto estava uma de suas maiores qualidades.

Ferreira Gullar era uma das grandes cabeças pensantes do Brasil, um intelectual completo, autodidata, reconhecido mundialmente, mas, entre seus amigos e sua família, era o José. Foi-se o maior poeta da Língua Portuguesa até então vivo. Ensaísta, teatrólogo, contista, artista plástico, tradutor, crítico de arte, intelectual de peso, mas, muito além disso, partiu um homem bom, digno, de gestos simples, que gostava da vida e prezava os amigos e a família.

A vida pessoal dos poetas e escritores em geral nunca me interessou muito (à parte talvez a de Kafka, que reproduziu a miséria de sua relação com seu pai em quase todos os seus romances), mas eu preciso dizer que Ferreira Gullar, o grande artista, a mente brilhante que se foi, era um ser humano admirável. O quanto de tristeza ainda me vem quando me dou conta disso.

 


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