Réquiem

autor Maya Félix

Postado em 17/10/2016 21:36:50 - 21:31:00


A ilusão de grandeza que caminha em algum tapete das etiquetas/Arquivo

E quando fazem sexo são como porcos e como fêmeas no cio, sem delicadeza e sem poesia nenhuma

Todos erram. Aquele momento em que o pé resvala, o dia em que as palavras saíram como vômito, a hora do medo maior que o brio, o ego subindo pelas pernas e já alcançando a língua. Cada um conhece seu erro inconfessável. Não um engano, mas uma canalhice. Nem mesmo uma canalhice: uma covardia. Uma traição, ou a força que se impõe, ou o segredo do clube de canalhas, ou a conspiração dos torpes.

Entreolham-se, cúmplices. Todos têm um erro inconfessável. Pai amoroso, homem de família, marido extremado que pegava a funcionária do mês no motel barato perto de casa. Divorciou-se, dois filhos, sofreu, mas continua canalha. Grande e respeitada senhora, arrimo de família, Nelson Rodrigues também a descreveu. Todos têm.

Nos mais altos escalões em geral estão os mais altos espíritos, homens creditando a si mesmos as maiores honras, cheios de grandes méritos de pequenos gestos, felicitam-se mutuamente nas recepções e apertam-se as mãos e deleitam-se em homenagens nas quais seus nomes, repetidamente, soam como sinos badalando no vazio.

Mas há o minuto do erro. Aquele. Não suportam se olhar no espelho. Fecham os olhos. Todos erram. Fecham os olhos. Tomam um álcool qualquer, seco ou com gelo, que lhes entorpece a mente. Todos. E agem sem lisura, apesar de comerem corretamente com os talheres, as mãos apenas em cima da mesa, o porte ereto, o terno quase bem cortado. Cruzam as pernas adequadamente, falam com pausas entre as palavras (aprenderam a ortoépia de todas as palavras perfeitamente, inclusive abrupto). Abrupto e abruptamente.

E quando fazem sexo são como porcos e como fêmeas no cio, sem delicadeza e sem poesia nenhuma. São como bichos, tão simplesmente, gabando-se da sacanagem maior ainda de que são capazes na cama. Luz acesa, sabem o que querem, quanto mais ousadia e sujeira melhor. São como porcos, e como vacas. Assim trepam, assim gozam e terminam. Nada há de poesia, nem de romantismo, nem de bom em seus atos. Inspiram asco e nojo do início ao fim. Seus ternos, seus vestidos apertados, a maquiagem barata e mal feita, a ilusão de grandeza que caminha em algum tapete das etiquetas, tudo flutua no lixo.

Todos erram. Qual o ser humano, levado por seus instintos, e por sua fraca carne, e por sua ambição imediata, que já não tenha escorregado, como dizem? Todos. Não há nenhum que tenha permanecido alheio ao erro. Os mais fortes, que se diga, são os que conseguem errar mais e melhor, e fazer de tal sorte que ninguém perceba, ou que todos saibam, e, sabendo, atribuam-lhes cada vez menos as canalhices que fazem, e, quanto mais erros cometam, menos lhes são atribuídos de tal modo que, com o passar do tempo, ninguém jamais tenha coragem de sequer questionar se um dia tossiram durante uma reunião. São esses os melhores: os piores. Seus amigos são também seus cúmplices, pois o acompanham na mesma frouxidão moral e ética. E brindam.

E quem, pois, poderá acusá-los, se todos já caíram? Dizem eles. Um dia, caindo a noite, deparam-se com os cabelos já brancos e algumas rugas. Um dia, entendem. Mas foi um minuto, um átimo. Nem mesmo um minuto. Depois, tudo voltou ao normal. Quando entenderam, houve um grande retrato de Dorian Gray diante deles.

Quase a máscara caiu-lhes do rosto, mas já estava pegada à cara. Não foi possível retirá-la. Voltaram a seus WC. Descobriram que tinham WC privados. Water Closet para cada um, e para cada um, um quinhão de pequenos privilégios. Salas particulares. Nomes em cartões e telefones corporativos. Carros institucionais. Quando tentaram tirar a máscara, ela já estava pegada à cara.


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