Quando a ficção flerta com a realidade

autor Maya Félix

Postado em 19/09/2016 08:06:07 - 08:04:00


Domingos Montagner era o protagonista de Velho Chico/Arquivo/Divulgação

Velho Chico trata de modo banal temas espinhosos para serem exibidos às nove da noite em cadeia aber

A triste morte do ator Domingos Montagner, protagonista da novela Velho Chico, fez explodir na internet comentários que insinuavam que ele e Camila Pitanga, sua colega de elenco na tal novela, estariam ali, nadando distantes, para ter algum tipo de envolvimento romântico.

A morte do ator, portanto, teria sido uma espécie de “punição cármica”, já que adultério é pecado grave, e o ator era casado há 15 anos e pai de três filhos.

Achei a insinuação desprovida de senso e cruel. Inicialmente, não vi de onde havia a lógica para uma afirmação destas, à parte o fato de que artistas são quase sempre tidos como “excêntricos”, categoria na qual vale tudo, até rasgar dinheiro.

Contudo, ao entender a lógica mais cruel ainda da novela, a ideia começou a não parecer, de todo, desprovida de sentido, ainda que, para mim, continue cruel. Velho Chico é uma narrativa na qual adultério é o menor dos males. De roubo a homicídio, a novela trata de modo banal temas espinhosos para serem exibidos às nove da noite em cadeia aberta. Lembro que as famílias brasileiras, aliás, são conservadoras, gostam de ver na TV mais Êta Mundo Bão e menos Velho Chico.

Como diz aquela música antiga da banda Legião Urbana, Geração Cola-Cola, a um dado momento os internautas decidiram “cuspir de volta o lixo em cima de vocês”, e começaram a imaginar que pessoas que divulgam ideias tão imundas cheias de traição, ódio, morte e outras sacanagens, logicamente estariam “inseridas no contexto”. A linha que separa ficção de realidade se desfez, e o adultério da personagem de Camila Pitanga e do personagem de Domingos Montagner, tão natural na trama, passou a ganhar vida na hipótese impiedosa levantada nos comentários dos internautas.

Se bem examinado, o raciocínio é quase infantil: como faríamos no caso de peças como Édipo Rei, de Sófocles? Entretanto, todo o imbróglio não nos deixa de fazer pensar sobre o que temos visto na TV, já há algum tempo, e o que temos visto na “vida real”. Registre-se que a audiência da novela subiu muito depois da tragédia. Imagino que ninguém está comemorando, mas na ficção o personagem do ator desaparecido flertou com a morte.

 


Rollemberg diz que não há decisão sobre ampliação do racionamento
Mensagem emocionante de quem construiu o Congresso
veja +
Parlamentares defendem ações e investimentos para a primeira infância
Para Perondi, governo enfrenta poderoso nicho de fiscais e Ministério Público do Trabalho
Eunício explica porque não leu o Projeto de Decreto do Trabalho Escravo
veja +